A Tapera dos Dois Lindões
Publicado em: 20/07/2025 03:08
(Ou: A noite em que até os fantasmas pediram arrego)
Dizem que naquela tapera esquecida ninguém ficava por muito tempo. Quem tentava, saía mais branco que cal de parede, depois de ouvir barulho de passo sem pé, porta rangendo sem vento, e um arrepio que parecia arrastar corrente pela espinha.
Mas aí, um dia, chegaram eles: Tico e Neco.
Não era gente comum, não. Eram… experiências visuais.
Tico, coitado, parecia que tinha sido batizado com álcool 96°, pegado fogo e apagado na paulada. A cara dele era um argumento contra a curiosidade científica.
Neco, por sua vez, era feio com diploma. Feio de perto e, de longe, parecia que tava perto. Teve um espelho que se jogou da parede só de vê-lo chegando.
— Hoje nós é que vamos dar susto! — disse Tico, com um gole de pinga que derreteu a tampinha da garrafa.
— E se a alma penada aparecer, eu dou um gole pra ela descansar de vez — completou Neco, sorrindo com um dente só, no canto da boca, parecendo um milho solitário.
Dentro da tapera, no canto da parede, a assombração se espreguiçava. Cem anos botando gente pra correr, tirando menino do trilho, assombrando viúva. Mais um serviço comum.
Ouviu os passos. Se preparou. Se materializou no corredor com um “BOOO!” carregado de tradição maldita e eco das profundezas.
Mas aí… veio o bafo.
Um bafo tão quente e forte que parecia que tinham soltado um dragão com sinusite. A alma sentiu o bafo atravessar seu ser etéreo, e pela primeira vez em cem anos, suou frio.
E foi então que aconteceu o impossível: os cabelos que ela não tinha mais desde o surto de febre de 1890 voltaram só pra ficarem em pé de pavor.
— Jesuuuis, me acuda! — gritou a entidade, tropeçando na aura e batendo a cabeça na parede invisível. — Isso não é visita, isso é praga encarnada!
Saiu pela janela voando, deixou as correntes pra trás e nunca mais se ouviu nada naquela casa.
Alguns dizem que ela foi pedir aposentadoria espiritual. Outros, que virou evangélica.
Mas quem passa pela estrada depois da meia-noite ainda escuta uma voz fraca no mato sussurrando:
— “Aquele ali me olhou e eu vi minha vida toda… e foi horrível.”
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