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Os Heróis

Publicado em: 07/08/2026 18:46

A planície se estendia por quilômetros. Era tão absurdamente plana que apenas a limitação do olho humano impedia que se avistasse a Torre Eiffel — se, claro, a Torre Eiffel existisse naquele mundo. Era uma planura tão perfeita que parecia ignorar até mesmo a curvatura natural do planeta.

Tudo era coberto por vegetação alta, de folhas estreitas. Capim — para ser mais preciso, capim-elefante. Daquele de cana grossa, folhas longas, mais largas que qualquer capim comum. Folhas cortantes como navalhas. O caule, áspero, coberto de farpas que se cravavam na pele com um simples toque, fosse mão, perna ou qualquer parte desprotegida do corpo. O capim alcançava a altura da cintura, às vezes mais.

Um ótimo lugar para se estar.
E melhor ainda para uma batalha.

Uma batalha que estava prestes a começar.

Kenshin, um dos heróis presentes, havia sido treinado desde muito jovem nas artes marciais e nas técnicas de espada dos samurais. O problema era simples: ele era horrível com a espada. Não acertaria um golpe nem numa melancia imóvel, implorando por misericórdia. Ainda assim, tecnicamente, fora treinado — o que, em sua mente, já contava como mérito.

Para compensar a completa falta de habilidade com a lâmina, Kenshin usava armas de fogo. E não apenas uma. Ele carregava um fuzil automático daqueles que disparam uma quantidade obscena de projéteis em poucos segundos, como se viessem de fábrica com algum tipo de cheat de munição infinita. Além disso, trazia uma pistola ainda mais roubada — tão roubada que o próprio fuzil parecia ofendido. Como uma arma tão pequena conseguia disparar tantos projéteis sem nunca precisar recarregar?

Infelizmente, havia outro problema.

A pontaria de Kenshin também era horrível.

Ele não acertava uma porta a poucos metros de distância. Nem uma parede. Nem o chão. Nem, estatisticamente falando, o ar. Mesmo disparando sem parar, com fuzil e pistola ao mesmo tempo, criando uma chuva contínua de projéteis, ele conseguia errar absolutamente tudo. As armas, se fossem capazes de sentir frustração, estariam profundamente decepcionadas. Era matematicamente improvável errar tanto — e ainda assim Kenshin conseguia.

Para compensar a falta de pontaria e de habilidade com a espada, Kenshin usava um cinto de utilidades repleto de granadas de fragmentação penduradas. O que, infelizmente, também não resolvia muito. Kenshin era tão fraco que mal conseguia puxar o pino de uma granada — quanto mais lançá-la longe o suficiente para não se explodir junto.

Foi assim que entrou em cena seu parceiro.

Bóris.

Bóris era um homem alto. Muito alto. Forte como um touro — mas não aqueles touros decadentes que se escoram na cerca para não cair e parecem prestes a se desmontar ao menor sopro de vento. Não. Bóris era um touro saudável. Seus músculos faziam inveja a qualquer herói de cinema com bíceps inflados de espuma.

Bóris era capaz de lançar uma granada a centenas — talvez milhares — de metros em qualquer direção.
E era qualquer direção mesmo.

Porque Bóris era cego.

Ele não conseguia ver onde estava o inimigo. Mas ser cego desde sempre lhe dera uma audição muito acima da de qualquer humano comum. Bóris era capaz de ouvir um alfinete caindo em cima de uma bucha de algodão. O que, ironicamente, não ajudava em nada, porque Bóris não era um morcego. Não conseguia localizar obstáculos pela audição. Pelo contrário: sua audição era tão sensível que ele precisava usar abafadores de ruído para que o som constante do mundo não lhe causasse dor física.

Para resolver o problema da visão, Bóris tinha um cão-guia.

Mas não era um cão-guia comum.

Era um pastor-alemão enorme, quase um lobo mítico. Um animal treinado não apenas na arte de guiar cegos, mas também — inexplicavelmente — nas artes do kung fu e do caratê. O que era completamente inútil, já que um cão não pode, de fato, lutar artes marciais.

Os dois heróis — e o cão-guia — estavam ali, parados no meio da planície. Talvez não exatamente no meio; a planície era grande demais para se ter certeza. Permaneciam imóveis, esperando pacientemente pela aparição do monstro.

Como sabiam que o monstro apareceria ali?

Intuição, talvez.
Ou quem sabe tivessem marcado o encontro previamente.
E, é claro, o monstro não faltaria a um encontro tão importante.

Ele surgiu do nada.

Imenso. Grande de verdade. Maior até que Bóris — o que, considerando o tamanho de Bóris, já era um feito considerável. A aparição foi tão repentina que dava a impressão de que o monstro talvez já estivesse ali há algum tempo, parado, esperando alguém notar sua presença. O que levantava uma questão incômoda: como algo daquele tamanho poderia passar despercebido?

Que Bóris não tivesse notado fazia sentido. Ele não enxergava.
Mas Kenshin e o cão-guia? Teriam estado tão distraídos assim?

Isso, porém, não importava.

O que importava era que o monstro estava ali.
E era grande.

O monstro rugiu.

Rugiu alto. Mas muito alto. Tão alto que os abafadores de ruído de Bóris se mostraram completamente inúteis. A onda sonora atravessou a proteção como se ela fosse feita de papel. Bóris levou as duas mãos à cabeça, pressionando os ouvidos com força, tentando evitar a explosão imediata dos tímpanos.

O rugido foi tão intenso que o pobre cão-guia entrou em pânico. Cães também têm audição sensível — talvez até sensível demais para esse tipo de situação. Ele se desvencilhou das mãos de Bóris e disparou em fuga, correndo pelo capim alto à procura de qualquer buraco, vala ou fenda onde pudesse se esconder daquele barulho infernal.

O monstro, claramente satisfeito com o próprio rugido, avançou.

Balançava os braços de forma exagerada, inflando o peito, tentando parecer ainda maior e mais ameaçador do que já era. Bóris, mesmo sem enxergar e já recuperado do ataque sonoro, reagiu por instinto: arrancou uma granada do cinto de Kenshin e a lançou com força.

Mas não muita força.

Força demais desperdiçaria a granada, que cairia longe demais. Bóris, experiente, dosou o arremesso. A granada voou em um arco elegante e caiu a alguns metros à frente deles.

Não chegou nem perto do monstro.

O problema era simples: Bóris não fazia a menor ideia de onde o monstro estava.

E havia outro problema.

A granada não explodiu.

Bóris havia esquecido de puxar o pino.

Kenshin, por sua vez, não pensou duas vezes. Sacou o fuzil e apertou o gatilho. A arma cuspiu projéteis com total desprezo por qualquer conceito de economia de munição. O recuo foi imediato — e previsível. Kenshin não conseguiu segurar o tranco, e a mira subiu rapidamente em direção ao céu.

Nenhum disparo acertou o alvo.

Como sempre.

Tudo parecia perdido.

O monstro ergueu os punhos, preparando seu ataque final. Porque ser monstro, afinal, não vinha automaticamente com poderes mágicos de brinde — às vezes, era só força bruta mesmo.

Então ele tropeçou nas próprias pernas.

Ser grande não era sinônimo de boa coordenação. Na verdade, costumava ser o oposto. O monstro perdeu o equilíbrio e caiu pesadamente no solo, exatamente embaixo da única árvore existente em toda aquela imensidão de capim-elefante.

Caiu de barriga.

Em cima da granada lançada por Bóris.

O detalhe não teve importância nenhuma, já que a granada ainda estava com o pino. O monstro tentou se levantar rapidamente, sacudindo a cabeça para tirar a terra do rosto. Levantou-se com tanta pressa que bateu a cabeça em um galho da árvore.

O galho era fino demais para causar qualquer dano real.

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