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O Bolo

Publicado em: 08/08/2026 21:21

Eu estava com fome. Como sempre, na parte da tarde, estava sozinho em casa. Tinha 13 anos. Fiz um café, mas precisava de algo para comer. No armário, só tinha pão; na geladeira, margarina e mortadela. Mas pão não me dava apetite, tinha que ser algo diferente. Pão todos os dias o deixava sem graça. Continuei olhando. Tinha ovos também. Até pensei em fritar um, mas aí seria pão com ovo – o pão outra vez. Voltei pro armário. Além do pão, só tinha farinha de trigo. Uma ideia surgiu.

E se, ao invés de comer mortadela ou ovo com pão, eu usasse eles como ingredientes e fizesse algo? Fui colocando coisas numa tigela. Trigo: não lembro a quantidade, coloquei a que achei que seria suficiente. Aí coloquei um ovo. Lembrei de quebrar e jogar a casca fora, mas o resto foi inteiro – sem bater claras em neve nem nada. Misturei até o ovo e a farinha virarem um concreto. Adicionei sal. Também não faço ideia da quantidade, um punhadinho pegado com dois dedos. Mas, pra garantir que não ficasse salgado demais, coloquei um pouquinho de açúcar. Fui adicionando água aos poucos e mexendo, até fazer uma massa mole.

Então tive a ideia final: cortei a mortadela em cubinhos bem pequenos, pequenos mesmo, e misturei junto, bem misturado. Aqueci o forno – minha mãe sempre aquecia antes de colocar qualquer coisa pra assar. E veio o problema mais sério: a forma. As formas de pão eram grandes demais para o volume da massa. Encontrei um copo de alumínio. Era um copo, mas tinha arrancado a alça com o tempo. Era bom, servia: não era pequeno demais nem grande demais. Lembrei que minha mãe, quando ia assar bolo, colocava óleo de soja na forma, espalhava por todas as laterais e depois polvilhava com trigo. Foi o que fiz.

O forno já estava quente, então era hora do passo final. Coloquei uma pontinha de colher de fermento químico, o Royal, misturei mais um pouco, despejei no copo/forma e coloquei no forno pra assar. Fiquei na frente olhando, esperando. A tampa do forno era de vidro e dava pra ver lá dentro. Vi quando a massa cresceu demais e começou a derramar pra fora do copo. Lembrei do episódio do Pica-Pau quando ele sai do recheio da torta e enche de fermento. Mas a massa derramou um pouco, solidificou e assou. Esperei mais um pouco e fiz o que sempre vi as pessoas fazerem: espetei a massa com um palito. Estava assada. Era só ter coragem de comer.

Aí foi fechar os olhos e torcer para que o gosto fosse, pelo menos, não ruim. Pra minha surpresa, tinha ficado bom. Só não sei repetir a receita – que, aliás, nunca foi feita uma segunda vez.

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